Não sei se vocês conhecem ou ouviram falar de uma peça em película chamada
Monster a Go-Go. Até ia falar em “peça cinematográfica”, mas chamar aquilo de cinema seria enfurecer a
Convenção de Genebra. A coisa é tão ruim que não dá nem pra fazer uma crítica, mas basicamente a história (se é que há uma) por trás dela é a seguinte:
Monster... foi cometido por um diretor chamado
Bill Rebane, infame por filmes de títulos como “
The giant spider invasion” e “
The capture of Bigfoot”, mas não só por ele. A bronca é que, no meio da produção, o dinheiro acabou e o sujeito acabou abandonando o projeto. Mas como em filmes clichê de terror (este, nem nessa categoria encaixa) algum mané acabou mexendo no que não devia e despertando um mal muito pior que qualquer coisa perpetrada por
Ed Wood.
Sério.
Herschell Gordon Lewis (também culpado de horrores como “Two thousand maniacs” e “Blood feast”) pegou a sobra do filme anos depois para completar uma sessão dupla de drive-in, e terminou a direção de cenas, história(?) e etc., até conseguir algo que tivesse ao menos créditos iniciais e finais.
E, creiam-me quando digo, o troço é realmente medonho. Não dá pra ver nem bêbado.
Mas, ao mesmo tempo, assistir a ele me deu um estalo na cuca. Nas costas também, num esforço súbito de alcançar o controle da TV pra desligar, mas isso não vem ao caso. Então, antes de falar o porque, uma breve sinopse.
Bem, como Monster não tem exatamente qualquer coisa que pareça um roteiro, não será difícil resumi-lo. Difícil seria fazer dele algum senso:
Pra encurtar, uma cápsula espacial em volta à Terra tem seu astronauta (Frank Douglas) desaparecido e inexplicavelmente trocado por um alto, radioativo, nervoso e humanoide monstro. Uma equipe de cientistas e militares tenta capturar o monstro, e em algum momento até consegue. Mas, tão sem explicação quanto o resto, o coisa ruim desaparece novamente e nem sua captura nem fuga são mostrados em qualquer momento; somente narrados. No fim do filme, os cientistas recebem então um telegrama informando que o astronauta foi visto, está saudável e bem, e foi encontrado no norte do Atlântico, tentando sugerir que o monstro (do qual não se tem mais notícias) poderia ser alguém se fazendo passar pelo astronauta. E acaba com o narrador dizendo que talvez nunca tenha havido qualquer monstro. The end.
Assim. Sem tirar nem pôr.
O “caroço do angu” é que, nos anos entre Bill Rebane falir a produção e Herschell Lewis reassumir a direção, não apenas o filme já era péssimo em primeiro lugar, mas alguns atores não estavam disponíveis, não havia muita grana pra continuar, e o segundo diretor só procurava algo pra tapar a brecha que precisava para a sessão dupla de filmes. Portanto, pra que ele se preocuparia com coesão, narrativa, atuação, roteiro, qualquer coisa? Bastava tacar de volta na tela um cara alto, magro e cheio de Amendocrem na cara, alguns milicos atirando a esmo e a plateia estaria convencida. Para cobrir os furos ou falta de cenas, coloca-se um narrador chato dizendo os eventos que não são vistos e pronto. Trama? Ritmo? Cinema? Arte? Respeito pelo espectador? Que nada. O povo quer é dar uns amassos no carro no drive in, e não importa o que se entrega a ele na projeção. Pão dormido e circo de gosto duvidoso.
E o estalo que me deu ao ver Monster a Go-Go foi justamente a esse. Lewis, tristemente, não poderia estar mais certo.
E foi baseado nisso que pensei em quanto vivemos diariamente uma realidade como a do filme. Pois não é exatamente isso que os governantes fazem com a população? Na maioria do mundo e, claro, no Brasil?
A lição de Monster a Go-Go é uma fácil de se ver, mas dura de engolir. O que o diretor do filme fez, foi terminar às pressas um arremedo de produto pra jogar ao consumidor, esperando que fosse digerido. Pois este último pagou seu ingresso, estava lá pra ver e esperava ao menos uma coisa verossímil em retorno. Era seu direito de espectador, mesmo que sua real intenção fosse passar a quinta marcha nas pernas de sua acompanhante durante todo o tempo.
E não é exatamente nessa realidade a go-go que se baseia toda a impunidade governamental sobre os cidadãos?
Todos pagamos o ingresso com votos, e em retorno esperamos a prestação de contas de quem rege o grande cinema em que vivemos. É nosso direito, supostamente inalienável, de receber respostas do roteiro que é reescrito todos os dias durante um mandato, mas tudo o que temos normalmente são remendos mal feitos, e tão absurdos, que nos são dados a comer para que nos preocupemos com outras coisas, como quem foi para o paredão ou quando será o próximo jogo do timão.
E quando a coisa pega fogo, uma denúncia vem à tona, e todos os olhos se viram para a tela esperando uma solução, o diretor e sua equipe nos costuram uma malha crua e dura de vestir, cujos botões simplesmente não encaixam nas casas. Mas está lá, é sua resposta oficial e temos que usá-la para atenuar nossos protestos de que, desta vez, a coisa foi longe demais. E o pior, a grande maioria usa sem reclamar, porque é mais fácil virar os olhos, dizer que o filme foi uma merda e esperar a próxima sessão, sabendo de antemão que a tendência é piorar.
É assim que ocorre quando políticos desonestos, oficialmente afastados, reaparecem pouco tempo depois em outros cargos, como o astronauta do filme, com um narrador tentando sussurrar em nossos ouvidos que talvez nunca tenha havido desonestidade em primeiro lugar.
É a maneira em que nos é dito onde foram parar aquelas promessas de campanha, projetos sociais, planos econômicos e demais panaceias que, nunca tendo saído do papel, acabam esquecidas sob jugos de que “a oposição não deixou”, “estávamos de mãos atadas” ou “está em eterno andamento”.
É a resposta das autoridades para a falta de combate à inundação de violência e drogas nas ruas, dizendo que sabem exatamente quem são os culpados, mas que estes são mágicos e conseguem sempre estar ou fugindo sem deixar vestígios, ou com estratégias de logística que colocariam a coca cola de joelhos pedindo conselhos.
É como se resolve o fato de que crimes e mortes aconteçam diariamente e em grande escala no mundo, e sejam dadas explicações espúrias como loucura, seitas, frutos-do-meio e etc., sobre os quais nada é feito nunca, enquanto crimes esparsos de pessoas célebres, ou só crimes em massa recebam toda a atenção, revolta e rapidez do sistema judiciário e mídia.
É exatamente como a infinita busca por armas de destruição em massa, que nunca aparecem e que todos sabiam não existir.
É como o velho clichê de aparições de ovnis no mundo, sendo todos reportados pelo governo como balões metereológicos fora de controle.
É a explicação dada por cônjuges quando chegam tarde da noite, completamente bêbados, cheios de perfume e álibis que só eles conseguem perceber como válidos.
Como tudo que nos é dado a crer como realidade, num país em que todos fazem, podem e agem como querem, porque qualquer justificativa será aceita pelo povo, mais preocupado em pagar prestações das casa bahia e ver o final da novela. Que, aliás, também muda de realidade, trama e roteiro o tempo todo, pra aumentar a audiência e manter os espectadores felizes.
E querem saber do que mais?
Ninguém realmente se importa, desde que os filmes não parem de passar, o carro esteja numa boa posição frente à tela e a pipoca continue chegando quentinha.
Citando o final narrativo de Monster a Go-Go:
“Como se um interruptor fosse desligado, como se um olho houvesse piscado, como se alguma força fantasmagórica no universo tivesse feito um movimento aeons além de nossa compreensão, repentinamente, não havia pistas!
Não havia monstro, nenhuma coisa chamada Douglas para ser seguida. Não havia nada no túnel além dos confusos e corajosos homens, que acabaram por encontrar-se sós com sombras e escuridão!
Com o telegrama, uma nuvem se vai e outra surge. Só o astronauta Frank Douglas, resgatado, vivo, bem e em tamanho normal, a oito mil milhas de distãncia dos eventos, em um barco salva vidas, sem qualquer memória de onde esteve ou como se separou de sua cápsula!
Então, quem ou o que aterrizou aqui? Estará aqui ainda? Ou será que o cósmico interruptor foi desligado? Mantenha em mente: a linha entre ficção científica e fato científico é de uma espessura microscópica! Você viu essa linha se afinar ainda mais!
Mas será que a ameaça ainda está conosco? Ou será que o monstro se foi?"