Bobos

Eis aqui uma data importante. 1º de Abril. O dia dos bobos, da mentira, da peça.

É uma data interessante. O momento (embora muita gente não preste mais atenção a ele) em que voluntariamente deixamos de lado toda e qualquer máscara social ou sentimental, preferindo o absurdo, o escatológico, o engôdo que pensamos diariamente mas não temos quase chance de praticar, exceto pelas falcatruas ocasionais que a vida nos exige praticar.

Se vocês notarem bem, verão que o 1º de Abril é uma das (senão A mais) importante data (não) festiva da humanidade. Comemorada desde os tempos ancestrais, nos quais os bobos da corte e menestréis podiam fazer ou cometer quaisquer atrocidades sem serem punidos, essa data é uma ode de amor ao ser humano.

Na vida de cada um de nós, estamos fadados a usar máscaras do que esperam que sejamos. Seriedade no emprego, fidelidade à família, sentimentalismo nos relacionamentos. E (sem querer acusar ninguém de improbidade) na grande maioria, embora o mundo espere que demonstremos os tópicos acima todo o tempo, somos um bando caricato de falsos idôneos. Damos bom dia ao chefe, cumprimentamos a professora, somos cordiais com quem detestamos, ajudamos velhinhas a atravessar a rua e indicamos, a quem não sabe, o caminho certo a seguir. Como máquinas. Não porque queremos, mas porque somos adestrados a fazer.

Tal qual robôs, vivemos numa sociedade que espera de nós um papel. E esse papel (ainda que não sejamos expulsos ou exilados se o deixarmos de cumprir) não somente nem sempre condiz com o que queremos ou sentimos vontade de fazer, mas muito bem viola nossa condição de seres independentes, pensantes e livres, e o que deixa no lugar parece um arremedo de papagaios dançando ao realejo da vida cotidiana. A nós é dito que nos comportemos, pois é o certo a se fazer; que compremos muito, porque é certo "ter"; que engulamos sapos, porque é nobre resignar; que pensemos iguais, porque a sociedade é feita de tijolos; que defendamos marcas, pois nos dizem quem somos; que eliminemos cada resquício de pensamento real, pois o contrário é coisa de bobo.

Não comecem a apontar as miras laser para minha cabeça. Calma, não entrem em frenezi assassino. Não quero dizer com isso que devemos passar a indicar caminhos errados, esfregar vinagre nos olhos de quem não gostamos, dar empurrões em velhinhas, estuprar o chefe ou chutar o saco das professoras. O que afirmo é que assumimos um papel que não é o nosso "eu" real diariamente, e ao olharmos no espelho, depois de muito tempo imersos nessa forma impessoal de viver, não vemos mais a nós mesmos e sim uma massaroca homogênea de inumanidade que lembra mais angú sem sal nem caroço. E, acreditem em mim, já não gosto de angú nem quando é bem temperado.

Mas no dia dos bobos tudo isso muda. As portas do caos se abrem, e aqueles que como eu apreciam este dia podem deixar suas formas reais de vida respirarem um pouco, fora do poço de alcatrão no qual estavam submersas. Podemos dizer ao chefe que não aguentamos olhar pra cara dele, e se mantivermos aquela carinha de "te peguei", ele rirá conosco ainda que saiba exatamente que estamos sendo sinceros. E se ele tiver um pingo de inteligência na cuca vazia que ostenta, aproveitará para nos mandar um aviso falso de demissão (o qual ele também tem vontade realmente de mandar, mas não pode porque depende de nós). O 1º de Abril é o dia da alforria social. Podemos ser livres, falar o que queremos, enganar e sermos enganados, deixar aflorar nossas reais motivações, sem ter medo que o mundo acabe, que torres de fogo desçam do céu ou que Edson e Hudson passem a tocar Mozart. A liberdade de ser sem temer.

Daí sou forçado a pensar: e se todos os dias fossem assim, tomados por essa saudável anarquia do dia dos bobos, será que ainda haveria guerras, inveja, dor? Será que teríamos ainda que acordar com aquela vontade amarga de não ir trabalhar, de não sermos "formatados" na escola ou de reprimir a necessidade súbita de colocar begônias na cabeça e sair pra desfilar? Teríamos que passar por tanta agressão política, social, ideológica se pudéssemos simplesmente mandar o mundo todo à merda e ir viver como bem quiséssemos, dependendo somente de nós mesmos e dos outros, num escambo cultural e social chamado realmente cooperação?

Não sei. Juro.

Mas tenho certeza de que em todos os outros dias do ano, que não este mal-julgado dia feliz, somos mais bobos do que pensamos. Bobos uns dos outros. Da máquina que inventamos e que agora nos engoliu. Do ser automático que sufoca personalidades e passa mentes em alvejantes. De uma vida total e completamente sem sentido, que defendemos como sendo a única verdade e fazemos questão de ensinar a nossos filhos. Mas eu preferia que fosse diferente.

Seria muito melhor fazer dezenas de tortas de lama e sair tacando nas fuças não de quem me faz mal, mas de quem me quer bem. Simplesmente porque essas poucas pessoas me fariam rir várias vezes, ao me darem livros que dão choque ou cigarros que explodem. E o mundo seria mais interessante.

Ou, ao menos, seria real.

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