Amorosos

Esta é a última postagem da trilogia que comecei há algum tempo, sobre bandas que só falam de um tema. A primeira da série foi a respeito de bandas que só falam de morte, e a segunda sobre as que adoram unicamente protestar.


Mas deixei esta por último porque, entre todas, é a que me dá mais raiva. Então agora vamos tratar de bandas, músicos e conjuntos que só falam de amor.


Não quero dizer com isso que sou algum solitário amargo e com vida sentimental inexistente. Amo minha namorada (que é minha mais ferrenha e apaixonante crítica, e de vez em quando deixa maravilhosos comentários aqui) e nossa vida a dois vai de vento em popa. O que falo é somente de um tema musical que não foi o primeiro a surgir, mas que, por algum motivo inexplicável, se tornou responsável pela aglutinação de milhões de bandas no mundo. E um tema que é, salvo extremamente únicas exceções, é tão mal tratado que chega a dar nojo.


Mas vamos à vaca fria. Bandas e musicistas que falam apenas de amor tendem a ter algumas tangentes indiscutíveis, e essas são tão iguais de um caso a outro, que não se pode mais dizer onde um conjunto começa e outro termina. Portanto me dedico a citar algumas dessas tangentes:


IMAGEM


Todas essas aberrações fazem sempre a mesma capa de CD ou DVD, modificando pouca coisa. É sempre o cantor ou banda vestido como seria Girogio Armani se houvesse nascido num forró. Sempre, e isso não tem variações, o(s) elemento(s) aparece(m) fazendo uma pose sensual, completamente ridícula e forçada, não importa se forem feios feito a fome (basta olhar qualquer capa de Roberto Carlos, Netinho, Michael Bolton, Wando ou Latino, no quesito masculino, e Sandy, Mariah Carey, Wanderléia, Sula Miranda na contraparte feminina, pra ter a exata noção do que falo).


Se não for a foto de pingüins e geladeira como menciono acima, então sem sombra de dúvida será uma capa breguérrima com a foto de um casal (detalhe: a mulher sempre estará vestida de vermelho) em poses forçadamente insinuantes.


TEMA


Um fato marcante que assola as bandas “amorosas”, é que o tema somente pode ser tratado nas canções se fizer parte de um dos seguintes:


  • Endeusamento: As integrantes deste quesito afirmam que “Eu te amo mais que a vida”, “Você é minha razão de comer, beber e respirar”, “Mato e morro por você, é só mandar”, “Quero viver em tua função” ou “Quero ser teu capacho pra você pisar”.


  • Depressão: As músicas dizem claramente que “Sem você eu não sou nada”, “A vida é insuportável desde que você partiu”, “Passo meus dias na cachaça porque não tenho ninguém”, “Só você pode me salvar” ou “Te quero tanto, mas você nem olha pra mim”.


  • Sacanagem: O último ponto é destinado aos temas que dizem “Rebola pra mim que eu te encaixo igual a um Lego”, “Dança pra mim no quadrado, na Big Coke ou sei-lá-em-que”, “Vem cá minha cachorra (pirigueti, preparada, vagabunda ou qualquer outro apelido carinhoso) que eu te dou um trato gostoso” ou “Vamos roçar que nem pauzinhos pra fazer fogueira”.


Daí você pega uma (ou um) criança / adolescente. Ela vai ouvir uma música sobre ENDEUSAMENTO e achar que é sua meta de vida. Como escravos apaixonados não dão em árvore, ela baterá as caras numa parede de chapisco até perceber que não é a praia dela, e passará a dar ouvidos a músicas sobre DEPRESSÃO. Tendo em mente essa tristeza toda, ela passará a ouvir músicas melacuecas achando que são românticas, e se identificará com o arquétipo de que o amor não existe pra ela. E como a carne é fraca e ninguém é de ferro, acabará se identificando com a vertente restante, a SACANAGEM, numa tentativa de conseguir o tal “amor” do qual todo mundo canta a respeito, não importando que, pra isso, tenha que deixar de lado qualquer resquício de respeito próprio. E ainda por cima, achando que é amada de verdade.


Se um ouvinte não tiver muito parâmetro ou respaldo capaz de filtrar as informações que recebe numa canção, claro que passará a achar comum músicas completamente explícitas e abusivamente grossas sexualmente.


E não venham me dizer que isso não existe.


GLOSSÁRIO


Música (como literatura, artes plásticas e etc.) é por definição uma forma de expressão artística, veiculada através do comércio. Contudo, está há muito tempo sendo um comércio exercido através de falsos artistas. E assim, essas bandas que critico usam letras e poesias tão feias e mal construídas que, ao invés de darem alguma experiência sensorial nova ao ouvinte, o empobrecem cada vez mais. Em suma, as letras das músicas são tão pobres e carentes de criatividade, que dentro em pouco a única palavra que os músicos terão para rimar com “amor” será “amor” mesmo, por falta completa de sinônimos (hmm, acho que já ouvi algo assim em algum lugar).


Claro que a música deva falar a linguagem dos povos, ninguém está mandando Felipe Dylon cantar em latim (se bem que ele conseguiria cantar latindo). Mas não custa nada embutir no contexto melodramático das canções um pouco de cultura, que não faria mal a ninguém e nem tiraria a diversão da música em se ouvir, cantar ou dançar.


Milhões de Cds são vomitados mensalmente no mercado, mas são de consumo tão rápido, e de igualmente rápido esquecimento, que do momento de lançamento ao que não se lembra mais quem era o artista, é questão de semanas. Quer uma prova disso? Pense num CD que ouviu ou comprou quatro anos atrás: tenho certeza de que você se lembra do “carro chefe do CD”, a música de trabalho, que tocava no rádio e na novela. Agora, tente se lembrar de quaisquer outras cinco músicas que estivessem no CD, pra você ver se consegue. Dou minha cara a tapa, se alguém conseguir (pra uma banda das que descrevo neste post). E sabe por que? Simplesmente porque as músicas não se sustentam, são tão vazias de conteúdo que passam no vácuo em questão de dias.


Essas bandas são tão chorosas e melosas que seus CDs já vêem úmidos e perfumados de fábrica, e conseguem transformar o tema “amor”, que é a mais nobre e valiosa emoção humana, em algo tão açucarado que fica desprovido de sabor.


Tal como ficam desprovidas de conteúdo as pessoas que acham que essas bandas sabem tudo que há pra se saber sobre o assunto.


No fundo, você também é o que você ouve.

7 comentários:

Beth Ribeiro disse...

Concordo em número,gênero e grau..Talvez não nessa ordem,mas acho que tá faltando criatividade nas bandas atuais até pra falar de amor.Mas em se tratando de melação,o prêmio número 1 para essa chatice vai para as bandas emos,que insistem em dizer que não são emos,e persistem em apenas uma batida e uma inversão de letras...E o sentido de todas as músicas são os mesmos :Não vivo sem você,você é meu tudo,pela última vez quero que seu destino seja meu,e blábláblá....
Abençoados são os que tem um ouvido mais requintado!
Excelente fim de semana,escritor!

Pensador Louco disse...

Certíssimo, Beth. Não quis dar nomes aos bois (ou boys, no caso dos emos), mas a verdade é essa mesmo.

Emos, a maioria dos grupos de pagode, sertanejo e o inferno do pop falam em amor sem parar, e sem nenhum fundamento também, como se o simples fato de fazer uma letra a esse respeito fosse suficiente pra tornar a música boa.

Simplesmente medonho.

Brigadão pela visita, e bom final de semana pra você também.

Mário disse...

E ao que tudo indica a grande massa adora essa melação babaca, deprimente ao estilo dor de cotovelo.

Pensador Louco disse...

É isso mesmo, Mário.

Se alguém vai ouvir e se dedicar a música "romântica" hoje em dia, acaba ficando tão melado pelas letras que deve ter batalhões de formigas correndo atrás.

Mas só formigas, he he he.

Muito obrigado pela visita, e volte sempre.

Cibele disse...

Concordo. As "bandas" de hoje deveriam parar um pouco com esses tipos de música. Principalmente se esta for destinada ao público jovem, que por sinal, a cada dia que se passa ficam mais alienados. Posso afirmar isto pelos meus colegas de classe.
E, para mim, a pior de todas é "Pagode", onde só insinua a sacanagem.

Onde vamos parar?

Parabéns pelo blog.

Pensador Louco disse...

Tem razão, Cibele. Um ponto que não cobri na postagem, e você ressaltou, é que grande parte das bandas e estilos que tratam unicamente de "amor" não o dissociam da sacanagem, como se os dois fossem exatamente a mesma coisa.

E tem razão mais uma vez, Cibele. Pagode é duro de aguentar.

Então, unindo-se a sacanagem "endeusada" por alguns grupos, com a baixaria e falta de qualidade de outros, temos praticamente a soma do triste cenário musical que a grande massa mundial consome.

Brigadão pela visita, e volte sempre.

Nacir Sales disse...

ALGO SE PERDEU NA TRADUÇÃO, seu trabalho é objeto de indicação no DOMINGO É DIA DE BLOG publicado hoje no Dr. Negociação.