Espelhos

Lina andou pelo corredor forrado de espelhos, e não sabia como ou porque teria ido parar lá. Andou tentando olhar só à frente, mas não podia deixar de reparar nas pessoas estranhas que andavam no vidro a seu lado. Ligou a música nos ouvidos e esperava que o corredor pudesse um dia ter fim. E Lina andava sem parar.

Os vidros eram enegrecidos, por vezes claros. Chiaroscuro. Ondulados pelo fogo, estilhaçados por mágoas, polidos em esperanças, mostravam irmãs aberrantes que ela não queria conhecer. A música estava alta em seu fone, mas Lina tinha certeza que as pessoas no vidro falavam dela. Sussurros em reflexos. As canções não conseguiam deter suas vozes em cacos. Quando vejo relâmpagos, sempre me sinto mal. Pois são livres e percebo que sou eu, quem se perdeu pra nunca ser achada.

Apressou o passo, olhou acima tentando uma fuga. Impossível. Como escapar de uma cela que reflete em suas barras milhares de saídas irreais? Som na cabeça, cochichos nos espelhos. O que queriam seus abortos? Vida em morte. Bilhões de possibilidades. Onde está o mal na mata? Queria chorar, mas temia que as pessoas dos espelhos rissem em resposta. Correu.

Vestido rasgado. Pés no frio liso do chão. Corria até o sol, mas sabia que ele afundava. A música nos ouvidos não impedia a conversa do vidro. Oh aristocratas, digam suas preces. Precisava que você fosse como o paraíso que eu via. Lina passava o corredor mais rápido do que se formavam suas feias irmãs, mas elas chegavam a cada novo passo que dava. O mundo era imenso, afinal, e cheio de lugares para ver. Ofegante. Coração acompanhando as batidas que os fones injetavam incessantes. E se tivesse de morrer. Tentando. Ela. Ao menos uma promessa não deixaria de cumprir. Nos conhecemos antes, e mesmo tão distantes, sempre estive perto de você.

Os reflexos não riam mais. A música estourava seus tímpanos. Corria para nunca, e via ao longe um largo poço na monotonia dos espelhos ao redor. Seus pecados não serão lembrados, e tudo o que encontrará é amor. Mais rápido. Saltando agora. Cobrindo metros com seus pés. Em meus sonhos vi anéis de fumaça sobre as árvores, e as vozes daquelas que olhavam. Me abrace agora. É uma pílula tão amarga, pra ser entregue por alguém tão querida.

O poço estava perto. Tão largo. Tão distante de um ponto que se sonhe. Queria poder saltar mais, voar, sair. Qualquer coisa pra não mais ser interrogada por suas irmãs. No percurso rumo ao prédio oculto. Traz a escuridão o frio do outono. O poço estava a seus pés.

Lina saltou.

As pessoas dentro dos espelhos a olharam cair.

E apenas o murmuro quieto do vidro ficou nos reflexos.

Pra contar sua fábula.

Pelo corredor que todos percorremos antes de morrer.

12 comentários:

berenice disse...

Profundo isto. Agora fui eu que fiquei com caraminholas na cuca... culpa sua, hehe!

Obrigada pela visita e elogios.
Bjs
Berenice

Pensador Louco disse...

Obrigado pela visita, Berenice.

E obrigado por colocar dicas tão boas no teu blog, pois estou sempre visitando lá.

Visite sempre aqui também.

Beth Ribeiro disse...

Lindo!!!
Adoro passar por aqui....
E adoro quando me visitas lá no Paradoxo!

Sabia que de pensador vc tem muito e de louco nem tanto assim?

Boa quinta!

Beijos

Pensador Louco disse...

Beth, um buzilhão de obrigados tanto pelo elogio quanto pela visita.

Teu blog é mesmo um primor, e gosto muito do que você escreve também.

Beijos.

Osc@r Luiz disse...

De arrepiar!
Eu já evitava um pouco os espelhos, agora então, acho que vou cobrí-los todos.
Meu amigo hábil com as palavras, será um prazer receber a sua contribuição para o Desafio.
Alguns ilustres amigos já o tem feito e como retribuição, tenho oferecido um selo de "Colaborador".
Adoro seus contos, e estou esperando ter um pouquinho mais de tempo para te fazer uma proposta ousada (não vá pensar bobagens... hahaha!).
É que no meu blog "Flainando na Web" já continuei contos de 3 bloggers (sem acordo prévio), mudando os destinos dos personagens.
Seria um prazer, um dia, bagunçar com a sua arte e ter mais um conto escrito a duas mãos, sendo uma delas a sua...
Pensar enlouquece... Pense nisso!
Um forte abraço!

Pensador Louco disse...

Grande idéia, meu amigo de alfarrábios. Achei simplesmente excelente, é só marcar pra fazermos a baderna a quatro mãos (ou dois teclados, como preferir).

Ainda não conheço esse teu outro blog, mas passarei lá hoje pra conferir, pode ter certeza.

E quanto ao Desafio, sempre que puder estarei colaborando.

Abração, e continue o excelente trabalho. Acredite, teu blog é uma contínua fonte de inspiração e idéias.

Claudya disse...

Lindo texto. Dá vontade de fazer uma montagem de imagem com ele. Bjs

Pensador Louco disse...

Há quanto tempo, minha amiga!

Espero que esteja melhor, e fico feliz de poder contar com tuas visitas. Também tenho deixado grandes hiatos entre minhas postagens, porque o tempo acaba mais rápido do que consigo escrever, e chego à conclusão de que meu relógio só tem 4 ou 5 número, mas a gente faz o que pode.

Fiquei bobo de ler teu comentário. Sendo a designer virtuosa que você é, fiquei imaginando como seria uma montagem de imagens sobre esse texto, feita por você.

Beijão, Claudya e apareça sempre.

Luma disse...

Lina, essa menina! Enfim se libertou! Por que é assim para muitos; a vida é uma prisao e quando a consciencia tenta espelhar a realidade é mais fácil fugir.
Adorei a visita!! Beijus

Pensador Louco disse...

Obrigado pela visita também, Luma, e tem razão, a fuga da realidade é feita exatamente assim.

Alguém correndo da realidade pode fugir indefinidamente, mas sempre será perseguida por sua própria constatação de quem é e o que faz.

Beijos, e volte sempre.

Jokers disse...

Realmente quando você resolve escrever de verdade surpreende, faça mais isso e mostre o que sua maravilhosa loucura é capaz...
Até mais.
Beijos

Pensador Louco disse...

Jokers, minha musa eterna, espero sempre poder escrever bem por me sentir bem, e ninguém me faz sentir melhor do que você.

Beijos. Vários. Infinitos.