Esquecidos

Sempre quis usar o “Algo se perdeu na tradução” para conter críticas sem muitos fundamentos, teorias sem qualquer base real, mistérios que nunca ocorrem e, a grosso modo, quaisquer elucubrações que minha velha mente imberbe fosse capaz de gerar.


Porém, longe de ser um tirano que não cita alusões a nada que não a seus próprios escritos, volta e meia faço jus a mentes infinitamente brilhantes (o que não é, olhando-se por qualquer ângulo, o meu caso), como minhas homenagens costumeiras a Nietsche, Maya Deren, Grant Morrison, Nuno Artur Silva, Jorge Luiz Borges e tantos outros. Criaturas que escreveram visões de almas cuja minha nunca alcançará.


E esta postagem é sobre mais uma dessas criaturas.


Diametralmente oposta de ser famosa como algumas das pessoas que mencionei no penúltimo parágrafo, ela está praticamente esquecida no tempo. E essa é exatamente a razão que escolhi pra prestar-lhe uma honrosa citação, pois deixar que suas obras caiam no esquecimento seria uma perda irreparável. Então me lanço em uma breve biografia da cidadã, e um pequeno resumo de suas mais célebres criações.


Lucy Jane Clifford nasceu em 1846, na Inglaterra, e estava destinada a se tornar uma novelista infantil. Casou-se com o professor, matemático e filósofo William Kingdon Clifford em 1875 (eles se conheceram quando Lucy estudava artes plásticas) e, a partir do matrimônio, a casa dos Clifford se tornou romaria indispensável para algumas das mentes mais proeminentes daquele período, entre as quais pode-se citar Charles Darwin, Henry James, Thomas Huxley e George Elliot.


Após o falecimento de William em 1879, foi idéia de George Elliot (que era muito amigo de Lucy) criar um fundo de pensão para ajudar a escritora e suas duas filhas. E com o tempo, e a crescente amizade entre os dois, sugeriu que Clifford “entretivesse” seus momentos de solidão social escrevendo livros infantis.


Usando isso como forma de ampliar seu orçamento doméstico, Lucy escreveu para pasquins e tablóides a princípio, mas logo publicava seu primeiro livro de contos, “Children busy, children glad, children naughty, children sad” (“Crianças ativas, crianças alegres, crianças travessas, crianças tristes”, numa tradução literal). Mas não parou aí.


Entre contos, peças e novelas infantis (e algumas adultas), Lucy Clifford criou o que seria eternamente sua obra prima. Em 1882 ela escreveu “Anyhow Stories” (“Histórias de Qualquer Forma”). Uma seleção de contos bastante curtos que, não obstante serem perfeitamente cabíveis a crianças de quaisquer idades, continham imagens inconscientes tão sérias e perturbadoras que afetavam também a imaginação de adolescentes e adultos.


Não havia em seus contos a violência de Andersen ou dos irmãos Grimm. Nenhum lobo devorava ninguém e nenhuma ervilha estragava a coluna das princesas. Mas as emoções contidas nas palavras e enredos, e as imagens criadas a partir do contexto das histórias eram tão fantásticas que, na época, causavam respostas imediatas tanto em velhos quanto novos. Todas as histórias tinham em seu início a imagem da felicidade e segurança, para depois, ao decorrer da trama, darem lugar a uma tensão moral crescente que terminava no surpreendente fim.


Eram histórias que durariam para sempre.


...


Contudo, como nada dura para sempre, mesmo tendo tido dezenas de reimpressões enquanto Clifford estava viva, suas criações foram esquecidas praticamente de vez. Estão quase extintas.


De domínio público atualmente, elas tiveram uma breve reimpressão em 1977 e só. Em sua recriação surrealista de Doom Patrol, o genial e anárquico Grant Morrison usou alguns textos de “The New Mother” em uma história mas, fora isso, essas são obras que se perderam no tempo. Ou que jamais chegaram ao público brasileiro porque, se não estou enganado, nunca foram publicadas por aqui (posso estar errado; se estiver, me corrijam).


Pretendo fazer a tradução de Anyhow Stories um dia desses, e dispor aqui em PDF pra quem quiser ler em português. Provavelmente quando estiver de férias, e não tiver nenhum deadline com gráficas ou afazeres me sufocando, mas queria, mesmo assim, divulgar as histórias aqui agora, como estão. Li a obra já depois de adulto, e os contos me deixaram de tal forma transtornado que as reli várias vezes desde então.


Como já sou um transtornado por natureza, decidi dar a chance àqueles(as) que quiserem variar de leituras fantásticas (entre as maravilhosas obras de Monteiro Lobato e Terry Pratchett ou a monotonia sem fim de Harry Potter) para que, ao contrário de terem uma leitura boa pra pegar no sono, abraçar uma que os deixará muitas noites pensando sem dormir.


Não vou me deter colocando resenhas de cada conto, mas queria escrever algumas linhas sobre um só, que me chamou a atenção pela sensibilidade acima de tudo.


“Wooden Tony” (“Tony de Madeira”) foi escrita como parte de Anyhow Stories, 62 anos antes de se ter identificado cientificamente o problema do autismo. Mas tem uma forma tão bonita e poética ao tratar do assunto, que se pode imaginar se Lucy não teve de perto a experiência de lidar com alguma criança ou adulto sofrendo desse mal.


Uma inversão total da história de Pinóquio, Wooden Tony contava a história de um menino de verdade, filho de um marceneiro suíço. Pinóquio queria ser real além de somente seu corpo, e para isso precisava adquirir consciência (ele a recebeu e se tornou definitivamente humano quando salvou a vida de seu “pai”). Mas Tony, ao contrário, desejava se tornar madeira, ficar separado de outras pessoas, até mesmo de seus pais. Queria ser “pequeno e distante” (ao ver objetos longe, sua abstração autista fazia com que os imaginasse pequenos), seus pais se viam tendo que lidar com um menino que quase não falava, ou que, como diz sua mãe em uma passagem, “Pensa mais do que consegue dizer”.


Abaixo está o link para os contos.


Estão ainda em inglês, é verdade.


Mas quem quiser ler, verá que vale a pena não deixar essas histórias esquecidas.


ANYHOW STORIES

3 comentários:

Nacir Sales disse...

ALGO SE PERDEU NA TRADUÇÃO foi objeto de indicação e comentário no post semanal DOMINGO É DIA DE BLOG publicado no Dr. Negociação deste final de semana.
Espero que gostem.
http://www.adequacao.com.br/blog

Estamos realizando um teste de duas perguntas para prova de que a crise não existe no grau badalado pela mídia. São só duas perguntas para demonstrar que os leitores se converteram em Consumidores da Crise. Teste aqui também! Queremos provocar uma anti-contaminação viral na blogosfera. Conto com vocês!

Ariane disse...

Interessante texto. Infelizmente, alguns caem no esquecimento antes mesmo de se tornarem conhecidos. Uma pena que seja assim e uma bela iniciativa tua. Abraço!

LETÍCIA CASTRO disse...

Helder, quanto tempo não passava aqui e quando volto, me deparo com uma dica maravilhosa dessas. Não conheço a obra de Lucy também, mas o link já está no favoritos e vou imprimir hoje mesmo (não gosto de ler no pc). A resenha sobre a escritora está perfeita (sei que não tinha intenção de ser uma resenha), apaixonada, de quem realmente aprecia a obra dela.
Mais uma vez, muito obrigada, adoro essas dicas.
Beijos pra vc!