Games

A vida imita os games.


É isso mesmo que você leu, não estou variando (não mais que o normal, pelo menos) e nem troquei “a arte” por estar viciado em algum MMORPG banana, desses que vazam toda semana e prometem ser o máximo em interação. Não gosto disso. Perderia mais tempo jogando Mistery Case Files ou Full Throttle do que qualquer uma dessas babaquices.


É que outro dia me bateu feito uma bigorna, que a vida de cada um de nós é como um game eletrônico. Então se antes a vida imitava a arte, trazendo ao cotidiano novas tendências, bordões de novelas, formas de agir, pensar e piriri, hoje em dia, neste “maravilhoso e global” terceiro milênio, são os games que se tornam modelos para nosso viver e morrer.


Começando pelo básico: Fases.


Por mais engraçado que possa parecer, se você prestar atenção verá que as vidas das pessoas (sim, isso inclui as nossas) é dividida em fases que não constam simplesmente no criança, adolescente, adulto, idoso. Cada ano, cada mês, cada semana, se acaso for, é uma fase a ser vencida. Sejamos ricos ou pobres, batalhadores ou apadrinhados, vivemos fases distintas a cada novo caminhar, e nelas estão contidos todos os elementos de uma fase de game. Temos os obstáculos, que podem ser definidos como metas profissionais, dívidas que contraímos, salário que não chega, desafetos antigos e novos, provas e teoremas, inimigos e novas amizades. Tanta coisa pra continuar no jogo, sobreviver, passar de nível, que é uma verdadeira luta, coisa que talvez um Street Fighter não conseguisse resolver com a mesma facilidade que temos de desembolsar. E exatamente como nos games, o final de cada fase é marcado por um desafio maior, o “chefe de fase”, que pode ser desde um patrão desumano ameaçando nos despedir, até manter um relacionamento conturbado, simplesmente porque passar de fase significa estar vivo, correndo no páreo. E quando a fase acaba, mal temos tempo de descansar. Queremos ver logo a próxima, porque jogo parado atrofia, e um dia desses queremos zerar o game e colher os frutos da vitória.


Daí vamos complicando: Personagens.


Todo game tem um personagem que você encara. Pode ser um piloto clandestino disputando driftings pelas ruas, soldados da fortuna nos combates e guerras, lutadores de algum tipo obscuro de luta, em busca do prêmio final, mas na nossa vida normal também representamos um arquétipo do que esperam de nós. Somos profissionais porque dependemos do emprego, estudantes dedicados porque queremos ser um dia profissionais, bons maridos ou namorados porque queremos tem um aconchego junto a nossas Zeldas. Representamos um personagem implícito dentro de nós a cada fase trilhada, e esse personagem nos define no jogo: é bom ou mau, joga limpo ou ataca pelas costas, mas independente de como age luta sempre pela mesma coisa. Jogar é essencial.


O alívio dos games: Saúdes e Golpes Especiais.


Esses são os bons momentos de se jogar. Quando tudo está quase perdido (“Cara, se eu tomar mais um tiro vou explodiiiiir!”) e você encontra um pacotinho de health flutuando na tua frente ou um kit médico dentro de uma gaveta, junto com munição extra. É a salvação imediata, te dá fôlego pra continuar na fase, correndo atrás e deixando claramente escrito que ainda não verão teu fim. Seja na escola ou faculdade, no trabalho, família ou vida a dois, todos achamos isso num momento de paz em meio a brigas, num auxílio do trabalho por alguém que vai te dar uma força. E faz a mesma coisa que os kits nos games, dá espaço pra darmos uma respirada, puxar o cinto pra cima e seguir correndo, que o mês tá difícil e ainda tem muita coisa pra fazer. E os golpes especiais são a mesma coisa: nos jogos eles são manobras complicadas de se realizar, mas que desferem um golpe fatal ou arma secreta que, sem mais nem menos, melhora em muito as chances em nosso favor. E quem não dirá que tem isso no trabalho, estudo ou relacionamento? Aquele “ás na manga” que só você sabe como fazer, e pelo qual ninguém esperava, que de repente vira a situação que parecia perdida? Alguém? Alguém? Ninguém? Eu sei.


As similaridades continuam: Barras de Energia.


Você já deve ter reparado que todo game tem uma barra de energia. Ela pode ser presentada por uma faixa, que vai ficando vermelha quanto mais você apanha, ou pelo número de vidas, e tudo isso representa a mesma coisa. A quantidade de porrada, decepções, traições, cansaço, dificuldades extremas e demais situações absurdas que você pode agüentar sem sair definitivamente do jogo. Se a barra chega no zero, você fica bambinho de vez e uma voz no fundo de tua nuca ecoa uma frase de “Finish him!”, ou você simplesmente cai e não tem mais forças de continuar. Mas independente do que aconteça, isso simboliza só uma situação: o jogo acabou. Game over. E se essa energia acabou no trabalho, você verá o golpe de misericórdia chegando como uma demissão; será uma ordem de despejo, se o aluguel estiver há muito tempo dependendo de teus malabarismos; será a vida de solteiro(a) novamente, se o relacionamento der seriamente errado. E você está fora do jogo, fracassado, derrotado. Terá de começar tuuuudo de novo, começar do zero, escolher outro ou o mesmo personagem, pra tentar passar dessa fase. Exatamente como nos jogos, quem nunca teve que levar um fatality e levantar pra tentar outra vez?


Não aceitar a derrota tem um nome: Continues.


Às vezes nossa vontade ferrenha de não perder é grande e, mesmo tomando na testa com um tacape de pedra, ainda temos chance de tentar sem ter que começar de novo. Num jogo isso é marcado pelos continues. Você acabou de olhar pra cara da derrota, é um mané incapaz, mas ainda tem dois ou três continues que voltam no início da fase anterior, e você pode passar só por ela de novo, pra ver se agora acerta ou dá sorte. Exatamente como nós, que por nossa força de vontade e tendência obstinada, nos recusamos a ver o fim de alguma coisa importante em nossas vidas e assim tentamos de novo só aquele último momento. Imaginamos que se fizermos melhor, só um pouco diferente da última vez, poderemos voltar pro combate que é viver sem ter que engatinhar todo o caminho de volta. Mas infelizmente os continues acabam um dia.


O aprendizado é importante: Savegames.


Savegames em jogos são também a salvação. Você gravou o jogo pouco antes de levar no lombo, e pode também voltar àquele instante sabendo o que vai acontecer em seguida, podendo se preparar pra quando o chefe de fase sacar a arma ou acionar o nitro. E pra nós, pessoas normais (quase todas), isso funciona como a experiência e o aprendizado. Saber previamente lidar com situações, poque já nos ferramos tanto na vida, conhecer o melhor caminho a tomar, ou ação a desempenhar. Trabalhar mais, pros deadlines não nos sufocarem, fazer milhares de simuladões pra que nenhuma questão nos pegue desprevenidos novamente, saber como tratar alguém, como se portar num relacionamento porque ficar sozinho pra sempre é tão ruim. Voltar e refazer, pois somos dotados da bênção de aprendermos com nossos erros, exatamente como num jogo qualquer.


O fim chegou: Game Over.


Aí não tem escapatória. Se você salvou o jogo ou ainda tem continues de reserva, ainda pode tentar ir em frente, mas se não, teu final foi decretado. E não quero comparar isso à morte, de jeito nenhum. Você não foi pro andar de cima (ou de baixo, vai saber), e terá simplesmente que começar a jogar outra vez. Ainda bem que somos teimosos o suficiente pra não desistir, determinados o bastante pra voltar às raízes. Nem todos, e isso é triste, mas a maioria. O emprego foi pras picas, o relacionamento acabou, o vestibular passou e você não se agüenta de desânimo e cansaço, mas é só descansar um pouco, recolher os cacos de amor próprio do chão e se reerguer. O game continua, você só terá que jogá-lo desde o princípio. Mais forte, mais experiente, mais velho. Mas lá. Porque deixar de jogar é se entregar à morte.


E no final da história, quer você vença o jogo ou não, só uma coisa importa e isso também há em nossas vidas igualzinho aos games de PS ou computador. O score. Não em pontos pra você ver se bateu fulano ou sicrano, ou dinheiro, mulheres, homens e diplomas.


Mas na memória e certeza de ser um bom jogador, porque a vida, como tentei demonstrar acima, é um jogo a cada minuto que temos dela pra jogar.

8 comentários:

C. Martinez disse...

amigo! genial! Eu te encontrei através de uma indicação do http://paradoxofeminino.blogspot.com/ .... que bacana, rapaz... idéia original, li muita coisa! já está entre os preferidos! parabéns pelo talento!

Jokers disse...

Estou sem palavras pra descrever o que eu senti ao ler essa postagem, e quando digo que faltam palavras faltam mesmo.
Não tenho sua criatividade nem sua competência para escrever, mas acredito no meu senso crítico e vc é muito bom, quero ler seu livro...e quero já.
Beijos

Pensador Louco disse...

Jokers, minha musa inspiradora, que bom que minhas parcas capacidades literárias são suficientes para agradar tão refinado (e crítico) gosto.

Fico imensamente feliz que tenha gostado, mas, quanto ao livro, esse você terá que esperar ainda um pouquinho pra ler.

Acho que é certo dizer que teu blog ficará pronto antes dele, e esse é um blog que, conhecendo você como conheço, será imperdível do início ao fim.

Milhões de beijos safados.

Pensador Louco disse...

C. Martinez, que bom que gostou de sua primeira visita a minha gaveta de abobrinhas, e espero que volte sempre.

Muito obrigado por participar, e por fazer blogs tão bons (sim, dei uma passeada, que será constante, por todos).

japublicidade disse...

OLá como vai?
Amigo estou procurando Blogueiros para o Portal que em breve estaremos lançando.
As categorias principais são:
Tcnologias, saúde, vida e estilo, artistas, política, esportes, entretenimento.
O Critério para aceitação de matérias é muito simples, basta ter bom contéudo e foco!
Aguardo sua resposta.
Att.
Joca.

Pensador Louco disse...

Caro Joca, fico muito honrado com o convite e pode contar comigo.

Se quiser, me passe uma preleção ou briefing do portal, pra que eu possa saber mais do que se trata, mas de momento, sem saber muito a respeito, digo de antemão que gostei bastante da idéia.

Abração, e volte sempre que quiser.

Annelize Tozetto disse...

Bem, que bom que gostou da crítica que eu fiz lá no HR... ;) Gostei muito do seu texto aqui. Você teve uma "pira" louca quando escreveu, mas que faz muito sentido! ;)
Beijos

Pensador Louco disse...

Annelize, realmente gostei daquela crítica e fico feliz que você tenha gostado de minhas "piras".

Obrigado pela visita e volte sempre.