Tonho estava pela primeira vez naquele apartamento, e simplesmente não sabia o que fazer. A disposição das coisas era absolutamente convidativa, uma série de objetos que, não obstante não terem quaisquer ligações entre si, formavam um tipo de corrente que não lhe escapava ao interesse, por mais longe que fosse de ter significado. E Tonho, em meio a isso, sentou-se displicentemente sobre as costas do sofá.
Sem saber o que fazer.
Era noite, mas as horas perdem sentido para alguém que não tem mais a bênção de dormir ou viver. Sentado sobre o sofá, Tonho olhava a máquina infantil de algodão-doce, o boneco de Jason sobre a mesa do escritório, os Gelo-Cósmicos espalhados, as roupas espalhadas pela mobília. E pensou, “Eu poderia viver aqui”. Alguém havia deixado o computador ligado, e a música lhe parecia aberrante. Tão distante do que ele fora quando andava, tocando o chão com seus pés. “Sem problema”, pensou. “Tudo tende a mudar de uma geração a outra”. Tudo era questão de ser bem vindo ou não. Independente de a música gritar e urrar, independente de haver coisas às quais ele nunca vira, quando pôde.
Estava perdido nesses pensamentos. Pensamentos e o vagar era o que lhe restava. Imaginava quando voltasse à casa. Quem ali poderia morar? Quando o dono do lugar chegasse, o veria sem ver, como se ele não estivesse ali. O atravessaria sem pedir licença, faria da casa sua novamente, e Tonho estaria como sempre. Só. Saiu por um instante das costas do sofá e foi ao espelho do banheiro. Sorte sua que ainda pudesse ser ver nos espelhos. Uma visão embaçada, pouco opaca. Mas estava lá, e isso ainda era muito bom.
Tonho ficou parado um instante admirando a imundície de sua pele, de seu rosto. A pele encarquilhada, como de um velho quadro a óleo que repentinamente é enrolado. O cabelo, há muito sem cor, tão sujo de passar pela lama intocável. Branco como seda, sujo como pano de chão. Olhos sem órbitas sequer para chorar, e uma boca sem dentes que não tinha mais como gritar ou falar. Roupas em trapos, uma não-vida de trapos. Trapos.
Voltou às costas do sofá. Gárgula, mãos sob o queixo.
Sem poder ou saber mais contar o tempo, sem poder reter a poeira do ar, ele poderia ter passado a vida ali. Mas um movimento súbito da fechadura o despertou do torpor. E, de súbito, eles estavam lá. Não um só. Um casal.
Não foi de todo uma surpresa. Tonho já havia passado muito por isso. Gente que vinha, que vai, que fica, que some. Gente que não se importa. O homem era entre corpulento e gordo. Careca. Vários brincos na orelha e sinais de embriaguez. A mulher era formosa. Cabelos pretos tão fartos e cheios quanto seus seios. Carnuda. Vestida. Também um pouco ébria. Voltaram a procurar algo, como se houvessem saído de uma festa, em busca que levariam de volta pra lá.
Ele entrou primeiro, e seu olhos bateram imediatamente com os de Tonho. Sem qualquer engano. Uma interjeição imediata do homem disse a Tonho que ele fora visto, estava sendo visto ainda. Contato, afinal. Ela olhou por cima do ombro de seu (amigo/namorado/esposo/amante?) mas nada conseguiu perceber. Ficou aquele clima chato no ar. Como se ele quisesse assustá-la, ou estivesse bêbado o suficiente para imaginar demais. Tonho se irritou. A primeira chance que teve em muitas eras de que pudesse ser visto, notado, a passou tão rápido quanto um piscar de olhos. Mas ainda assim, aconteceu.
E ele se faria notar novamente.
O casal saiu, e Tonho se ajeitou melhor no sofá. Era sua contenda agora, reclamar o direito de existir, mesmo além de qualquer chance de viver. Aquele apartamento, por mais simples e apertado que fosse, seria seu lar também. E nenhum casal no firmamento lhe diria para sair sem que ele provasse, acima de tudo, que tinha direito de ser uma valorosa visita.
Olhou suas mãos. A unha do inciador estava tão longa e serrilhada, que poderia marcar a fundo em qualquer bife de carne real. Quanto mais a sua, que estava morta há gerações. Cravou-a em seu braço, e o sulco deixou cair um filete de sangue translúcido que jamais tocou o chão. Aquela pele encarquilhada seria seu diário, já que memória tende a falhar quando o tempo inexiste, e nela ele deixaria registradas suas conquistas por ser reconhecido. A única e última chance de não negar que algum dia tenha sido um igual. Quer eles quisessem, quer não.
E em pequenas letras marcadas de nervos e músculos rijos, sua bíblia começou.
Tratou de definir como lhe cansava não saber quantas semanas assistiu a banhos, jantares e sexo, sem poder tocar, sentir, ou cheirar. O irritou ouvir piadas que não entendia, sobre nomes impossíveis ou frases mal construídas, ou o quanto tempo passavam ao computador, numa tela que lhe era proibido enxergar.
Deixou-o cheio de esperanças saber que ambos no casal, por volta e meia, o viam de relance. A indignação o assomava quando o homem o tratava com desdém, enquanto ela, com receio. Maior ainda a indignação quando o homem o batizou. Jamais havia se chamado “Tonho”.
Tomado pela raiva, uma noite, de madrugada, chegou a conseguir colocar sua mão na garganta da mulher. Queria apertá-la, mas tudo o que conseguia era um fraco segurar. A mulher acordou, assustada. Não entendeu que “Tonho” desejava apenas respeito, mas o medo dela fez a ele bem. Também era uma forma de respeito.
Em dado momento, eles trouxeram um cão para dentro do apartamento. O homem chegou a brincar. Disse que agora tinham “dois” bichinhos de estimação. Tonho tentou arrancar um brinco, mas mal produziu uma brisa em sua orelha.
O filhote o via claramente. Latia para ele nas paredes, nos móveis, nas portas. Eles sabiam que o cão tinha clara noção de sua presença, mas eles ainda não tinham nada além de milimétricos vislumbres de que ele compartilhava suas vidas.
Mas de uma coisa ele tinha certeza. Estava cada vez mais sólido de se ver.
Sabia porque podia mover panelas, derrubar cinzeiros.
Entretanto, longe de provocar medo no casal, levava broncas e reclamações. O homem falava com ele como se ralhasse a uma criança, mas nada fazia para livrar-se de sua presença e, como tinham poucas visitas, acostumavam-se a cada dia de sua presença. Não entendiam que ele não lhes queria mal? Entenderiam ainda.
E uma noite, aconteceu. Eles passaram a vê-lo mais tempo.
Quando passava na porta do quanto, enquanto eles viam filmes. Quando ela ia ao banho, e ele se dependurava na porta para assistir; quando ele andava lado a lado com o homem, e ele não se incomodava. Chegava a saudá-lo. Quando eles falavam alegremente (ela ainda com certo receio) de sua presença, a amigos. E eles chiavam. E o casal sorria.
Tonho (já aceitando melhor o nome, mesmo partindo de um infame trocadilho) já se sentia bem vindo. Já podia sem medo, ou solidão, partilhar de seus jantares, da TV, das brincadeiras, das brigas, do cão, da vida. Como quando ele um dia ele havia vivido. Se sentia vivendo novamente. Não tão distante de sua não-existência atual, e ainda tão perto do que teve uma vez. Não iria mais brigar por aceitação. Parte da família.
Soube disso quando o homem, uma tarde, resolveu escrever sobre ele no computador.
Não podia ver as palavras que ele usou.
Mas amou cada uma delas da mesma forma.











3 comentários:
Nossa, que história linda (posso parecer uma tonta dizendo isso, mas eu realmente a achei linda). Principalmente o final.
Ainda bem que o Tonho se sentiu vivendo novamente. Já estava começando a ficar com pena dele. :)
Mas a vida sempre surpreende, né? Até os que não estão vivos..
Beijo na alma.
Obrigado pela visita e pelo comentário, Cibele. Tenho certeza de que Tonho apreciou muito também. :)
Abração.
Caro Parceiro,
O endereço do blog Mosaico a Psicologa mudou para:
http://mosaicodapsicologia.blogspot.com
Ficou mais óbvio (risos)
Por favor efetue a troca.
Bom fim de semana
Silvinha
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