Sofridos técnicos


Há uma camiseta que vi numa marca “geek”, dessas que se vê nas viradas da net, ostentando uma frase:



I WON'T FIX YOUR COMPUTER



A verdade é que essa camiseta me levou a pensar em várias coisas. E como pensar não é exatamente meu forte, parei logo na primeira coisa que me veio à cabeça: técnico de computador (ou qualquer pessoa que saiba mexer um pouco além do “Coréu”) tem o pior emprego do mundo.

E nem pensem em dizer que estou sendo leviano, em não pensar nos professores (que têm aqui um salário miserento e alunos piores que isso), policiais (que saem às ruas todo dia podendo tomar tiros, e nem mesmo assim ganham respeito de ninguém) ou proctologistas (não farei sub comentários sobre esses).

Muito pelo contrário. Sei dos revezes que há em cada profissão, e dou minha genuína simpatia a todos. Mas em somando todos os fatores, técnicos de computadores sofrem as torturas do inferno. Por já ter sido um, sei o quanto de terapia terei de fazer pra esquecer, e quanto karma já queimei nessa vida ingrata. Mas deixemos isso pra lá. Minhas desventuras com essa maledetta profissão já se foram.

O mal nesse tipo de trabalho é que, por síntese, o infeliz do técnico é o ralo por onde desce a imundice da informática. Tal como os policiais dos quais falei acima, não têm o respeito de ninguém, estão sujeitos a ouvir os maiores desaforos, são obrigados a consertar a vastíssima extensão de merda que os outros fazem e, o pior de tudo, estão condenados a parecer que podem ou querem fazer isso o tempo todo.

Carros são elementos essenciais na vida moderna. Então quando um cabra compra um carro, ele ou já tem, ou sai disparado pra fazer um curso de motorista, pra poder usar sua carroça sem medo de fazer feio pro seu gualda ou não se arrebentar num poste. É praticamente obrigatório. Todos concordam? Beleza.

Mas com computador não é assim. 99% das pessoas compram computadores sem saber exatamente pra que servem, o que farão com eles ou como eles ajudarão suas vidas. Mas que eles são indispensáveis, disso todos têm certeza. Agora, perguntem-se quantos desses noventa e nove vão correndo fazer um cursinho, pelo menos pra saber que Word não tem nada ver com Beto Carrero? Não tenho que dizer, acho que vocês chegaram à mesma média.

Despreparados como seriam motoristas de primeira viagem, é ÓBVIO que saem cometendo as maiores atrocidades. Não há como fugir. Mas tendo em vista que ninguém sai morto ou preso por não saber usar o computador, eles fazem as besteiras e, quando fica impossível usar o micro, dizem uma frase que quase nunca escapa do padrão: "Você dá uma olhadinha no meu computador?"

Não importando que eles só lembrem do técnico nesses momentos (porque, de resto, ele é só um nerd e, como tal, deve ser evitado), a questão é que, se o técnico de informática estiver a trabalho, então ele deve consertar ou morrer tentando. Independente de que:

  • Os micros estejam cheios de vírus ou páginas pornôs porque “Ai, eu só entro no orkut e ná página do banco”
  • Os Hds estejam completamente cheios de lixoware que foi instalado sem ter porquê, e nunca usado pra nada além de ocupar espaço (aliás, como o usuário)
  • O mané do cliente tenha perdido todos os seu dados por mau uso, e o técnico tenha que desesperadamente fazer recover pra ver o que se pode salvar
  • E etc.

Mas isso acontece com qualquer um. Principalmente com qualquer um que não saiba o que está fazendo. Agora, o mal desse técnico a serviço é que (1) não importa o quanto ele tenha estudado, ou tenha sido difícil resolver, o preço que cobrar nunca será justo para o cliente; (2) se dados ou Hds não forem recuperados ou reabilitados, nada tirará do cliente a idéia de que é incompetência do técnico; e (3) o coitado do trabalhador pode deixar o micro novo em folha mas, é só entregar o computador de volta, e o cliente voltará a fazer as mesmas retardadices. Claro que, quando der problemas outra vez, será tudo culpa do técnico, que “não sabe resolver nada de vez”.

Agora, se vocês pensam que o tormento desse técnico termina quando ele sai do trabalho, estão muito enganados. Porque é exatamente aí que ele deixa de ser o técnico pra se tornar “um cara que eu conheço, e que sabe tudo de PC”.

Nessa nova fase, ele jamais poderá passar em casa de conhecidos, parentes, amigos, amigos de amigos, e sempre terá um babaca pedindo pra ele fazer (de graça, claro), o que ele cobraria pra consertar se ele estivesse trabalhando. Com o detalhe de que ele trabalha o dia todo nisso, e não tem mais saco nem de olhar pra micros quando sai; que ele, por mais educado que seja, não tem porque trabalhar de graça “só porque está ali”; e que ninguém acha que seu trabalho cansa, porque “ele só fica sentado o dia todo, mexendo no mouse”, como se ele fosse um desocupado.

Agora, imaginem que vocês têm um amigo dentista. Quem seria cara de pau de pedir a ele: “Ô Marcão, dá pra arrumar minha obturação rapidinho?” no meio de uma festa? Nem precisam responder também.

Aqueles que lerem este post, e forem técnicos, entenderão perfeitamente do que estou falando (quer dizer, escrevendo). Saberão o que é trabalhar sem apoio, num emprego em que se ganha pouco porque todos acham que é fácil. Saberão o que é gente abusada, pentelhando sempre que há chance. Saberão o que é ter que fazer isso o tempo todo, como aquele outro (nem) tão sofrido amigo que a maioria tem, e volta e meia é obrigado a tocar violão como mico de circo pra animar o churrasco. Saberão sim.

Ainda bem que me curei, e hoje em dia tenho uma resposta imediata pra isso.

- E aí, Felipão, você pode dar uma guaribada rápida no meu micro, que ele tá todo estranho?

- Claro que posso. Apenas não quero.

2 comentários:

Cibele disse...

Oii, querido. Deixei um meme lá no blog pra você. Depois passa lá e pega. :)

Beijo na alma;

Pensador Louco disse...

Brigadão pela visita, Cibele. Pode deixar que passarei lá, sim.

E obrigado pelo meme. Adoro receber presentes.