Outro dia vi, num fotolog no qual esbarrei pelas quebradas da net, uma campanha em prol dos super heróis brasileiros. Como sou desde a infância um ávido leitor de HQs, conferi a postagem e a achei muito interessante. Pra galera que nasceu de 80 pra cá, isso pode até não ter qualquer mérito. As investidas nos quadrinhos nacionais sempre ficaram mais marcadas pela independência, e conseqüente falta de grana dos autores, do que pela assiduidade de publicações.
Antes dessa década, até houve algumas investidas nesse ramo. Mas nada que chamasse suficientemente a atenção de leitores freqüentes, ou que era tão banana (devido ao ambiente político que reinava no Brasil) que nem valia a pena se ler. Mas uma exceção comprova dignamente a regra, e dessa falarei mais no final da postagem.
Não é por falta de talentos. O Brasil tem vários desenhistas e roteiristas muito bons, como Roger Cruz, Marcelo Campos, Mozart Couto e Mike Deodato Jr. Mas alguns desses, por falta de espaço nacional, se mandaram pros EUA pra ganhar um dindim decente. Outros, como Marcelo Cassaro e Erika Awano, fizeram excelentes quadrinhos aqui (que eram passados em outro mundo, então não contam muito nesta postagem, como o excelente “Holy Avenger”).
O que me leva a escrever este post é: será que o Brasil precisaria de um super herói?
Vejam, super herói que se preza não pode fugir a temáticas básicas, que independem totalmente de se ele tem ou não super poderes, se é mutante ou recauchutado de maquinário ou se é simplesmente uma deidade. Basicamente, todo super herói é:
SUPIMPA
Não dá pra fugir. Todo super deste quesito tem que ser heróico, e dar sua vida para salvar inocentes, injustiçados, frascos e comprimidos. Essa vida dupla questionável que leva é acima de qualquer mácula moral, e ele precisa usar sua face de cidadão comum apenas para fazer valer sua vida voando entre prédios e socando fuças de criminosos. Ele não tem realmente vida social, sabe Krishna como ele pode conseguir e manter namoradas ou casamento e, acima de tudo, seu trabalho serve para, se ele não for um bilionário entediado, consertar as engenhocas, armas, defesas e gadgets que o mantém vivo enquanto se desvia de saraivadas de balas.
O herói é talvez o mais antigo posto voluntário do mundo. É o sujeito que não está lá pela grana, mas pra ajudar e não se preocupar que ele mesmo precise de ajuda. É tomar tiro, tabefe, explosão, raio laser e beliscões, e no final ainda deixar uma lição de moral pairando no ar.
Penso que todo herói de verdade depende somente de duas coisas: ser invulnerável ou ter um bom dentista. Isso sem mencionar que ele tem que manter o emprego (ou gerir suas empresas, se for muito rico), ligar pra mãe de vez em quando, fazer um tchaca-tchaca nem que seja anual (pra manter a sanidade) e remendar seu spandex pra não parecer desleixado. Não imagino alguém no Brasil que seria assim, mas todo herói é ruim da cachola, de uma ou outra forma.
Ou:
RECALCADO
Este é o quesito que cobre todos os amargurados, raivosos e iconoclastas anti-heróis. Eles fazem o bem, mas de forma tão dúbia que mal dá pra perceber. Pouco se lixam pras leis, porque só seguem as suas, e matam de vez em quando um grande vilão (deixando pelo caminho uma longa trilha de costelas de bandidos quebradas). Eles querem justiça a qualquer preço e pra todos, menos pra eles mesmos, que são tão ou mais doidos que os criminosos que caçam. E, da mesma forma que os heróis legítimos, não têm vida social ou namoradas porque estão ocupados demais estudando criminosos, odiando as próprias vidas e cultivando úlceras.
Todo esse estilo “mau pra cacete” dos anti-heróis se estende a sua personalidade do início ao fim, e qualquer um deles tem um trauma de infância, uma vendetta pessoal ou assuntos mal resolvidos contra quem quer que seja que tenha pisado em seus calos. Anti-heróis são revoltados por natureza. Tenho a impressão de que, se acabasse um dia o crime no mundo, eles terminariam não tendo absolutamente nada de pessoal em suas vidas e teriam que criar tipos novos de crime pra poder espancar alguém. Penso que jogar papel no chão, contar piadas sem graça ou fumar em local proibido seriam morte certa ao infrator.
No fim das contas acabariam por decretar suas próprias leis e se tornar parte do próprio terror que, lá atrás, eles juraram que iriam perseguir e atacar. No Brasil, pelo menos, vejo isso nos grupos de “Pit Gracie Pet Shop Boys” que, por acharem que arte marcial só serve mesmo pra bater, e não tendo cacife pra encarar balas de frente, saem espancando mendigos e etc. Parece que no Brasil o maior crime é ser pobre.
...
Talvez o problema seja porque não há super vilões no Brasil. Nenhum arqui-inimigo quer destruir nossa sociedade (pra quê?), nenhum tem vontade de transformar todos nós em escravos sem livre arbítrio (sempre fomos, uns mais, outros menos, sem precisar de nenhum vilão que não apareça em novela ou Brasília), ninguém vai roubar nossos tesouros nacionais (pra isso já há corporações internacionais) e somos, normalmente, um povo tão desprovido de vontade de mudar, que não teria graça nenhuma.
No Brasil os super heróis não teriam como vencer a fome, a escravidão, a falta de educação, a corrupção, o tráfico de gente e drogas. Eles poderiam cutucar os sintomas, dando petelecos em ladrões, traficantes e deputados, mas jamais deter uma engrenagem mais maligna que qualquer Darkseid ou Rei do Crime, e que vem tomando conta daqui muito antes de Kripton ter explodido. Uma soma de falta de vergonha e cretinice, que tem o rosto de todos que, se não fazem parte do esquema, então são omissos a detê-lo.
…
Mas um tempo atrás tive uma imensa satisfação em saber que, apesar de todas as impedâncias que citei acima, uma dupla de autores criou uma história em quadrinhos sem par. Um autêntico super herói brasileiro (sem spandex) completamente inserido no cenário real nacional e que, sem sombra de dúvida, seria nossa versão perfeita de qualquer SUPIMPA ou RECALCADO que aparecem nas comics estrangeiras. Ele é herói, porque sua motivação é nobre e pura; é anti-herói, porque não mede esforços em sentar a bifa sem medo de tirar sangue malfeitores. O Vira Lata (não confundam com aquele cachorro que fala e voa) era um herói nascido, criado e patrulhando no Brasil. E tão raivoso quanto Wolverine, tão determinado quanto Batman, tão consciente de grandes responsabilidades quanto Homem Aranha.
Criação de Paulo Garfunkel e Líbero Malavóglia, o Vira Lata teve histórias sensacionais, mas infelizmente difíceis de se encontrar (como acontece com tudo o que é realmente bom e artístico por aqui). Entretanto, li recentemente que ele está pra ser transformado em filme, e mal posso me conter de ver esse projeto ir até o fim. Fiquem à vontade pra procurar e conhecer, porque vale a pena.
E, no mais, para o alto e avante.
Ps.: Não quis citar nada relativo ao tal “Mutantes: Caminhos do Coração”, porque estou falando se super heróis, não de Teletubies.











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