Fúria Furiosa

Foi num sábado, logo em cima da hora do almoço, que cheguei em casa com uma Fúria nas mãos.

Minha namorada já imaginava que eu levaria algo desse tipo, tendo que há algum tempo havia me dito ser hora de termos uma. Qual lar se preza sem uma, afinal de contas? E lá estávamos nós. Eu, minha namorada e a Fúria.

Para aqueles que não sabem, aquilo que eu trouxera para casa, a Fúria, era um raro exemplar da raça das Fúrias. Mais que raro. Era o único conhecido (ainda bem).

Visualmente, a Fúria parecia amigável e tinha todas as caraterísticas de sua espécie: cabeção bem maior que o corpo, quadrúpede, cauda, dentes finos e pelos ralos por toda a extensão de seu corpo pequeno. Estava assustadiça a princípio. Deitava-se numa cama improvisada, um edredom dobrado perto da porta da sala, e dormia tanto que achávamos ser ela membro dos Valiuns, ao invés das Fúrias. Mas esse período curto de crisálida, em que a cabeça era maior e o sono mais importante, durou muito pouco.

Logo que despertou para sua adolescência avassaladora, a Fúria decretou seu domínio sobre tudo que seus olhos alcançavam: móveis, paredes, portas, comida, bebida, roupas, calçados e, como não poderia deixar de ser, nós.

Irrepreensível em seus atos, temerária em atitudes, irascível em temperamento e, de forma geral, dona de um “gênio do cão”, a Fúria deixou, a partir de quando tomou para si o apartamento e tudo dentro dele, uma longa lista de catástrofes:

  • Vários pares de sapatos e chinelos despedaçados
  • Batentes de portas roídos
  • Pernas de cadeiras marcadas a dentes
  • Roupas esfarrapadas
  • Fontes de notebook e carregadores de celulares
  • O maior e mais completo panorama de destruição

E mais. De nada adiantavam as retaliações e planos de estado que tentávamos por em prática contra ela. Vejam, bem: Fúria é imune à dor, pois não aprende nem tomando dezenas de chineladas. É resistente a venenos, porque adorou a pimenta vermelha que passamos no batente da porta. É inventiva, ao decidir que rolos de papel higiênico servem melhor como fiapos cobrindo todo o chão, e de nada adiantou conversarmos com ela, levarmos para passear, ameaçarmos, implorarmos, querermos colocá-la no liquidificador...

Fúria apenas ria, e continuava seu trabalho de anjo da morte em nosso apê.

Mas nós dois a amamos muito, mesmo assim.

Na verdade, Fúria é uma mistura de Fox Paulistinha com qualquer-outra-coisa, que foi deixada, junto com cinco irmãos, numa caixa de papelão em frente à casa de uma conhecida nossa. Sobrou a nós adotá-la, cuidar dela, amá-la e tentar espancá-la quando ela destrói alguma coisa.

Tarefas que cumprimos com toda dedicação.

Meu amor, que recebeu o livro “Marley e eu” de uma amiga, chegou a pensar se ela não seria uma “Marla”. Uma tão espevitada quanto a do livro. Mas não. Não mesmo. Ela é muito pior.

Agora o motivo real desta postagem. Fora homenagear a cachorrinha-dos-demonhos que temos em casa há meses, dei uma lida no excelente Sidney Rezende e vi uma matéria a respeito de adoção de vira-latas (que agora deveriam se chamar “rasga-sacos”, já que latas de lixo são raras pelas ruas).

Na divulgação da campanha “Adote um Vira Lata”, Sidney ajuda milhares de cãs e cãos a encontrarem novos lares, sem terem que depender de pedigree, raça, cor, credo ou visão política.

Ajuda porque são seres vivos, inteligentes (muitas vezes, mais que seus donos), fiéis, e no geral, muito, mas muito mesmo, apaixonantes de se cuidar.

Então está dado meu recado. Visitem o site de Sidney Rezende, entrem na campanha, divulguem, comentem, ajudem e, principalmente, adotem.

Tenho certeza de que encontrarão, através dessa campanha, um cachorrinho com cara de pidão que destruirá completamente a estabilidade de tuas casas e apartamentos. E mais, por amor.

O que mais alguém pode querer?

2 comentários:

Jokers disse...

Queria poder levar todas as Fúrias do mundo pra casa, mas infelizmente não posso, eu vivo em uma ditadura onde só é permitido uma Fúria por casal.
Mas tudo bem, também não haverá aquários e formigueiro enquanto eu não estiver satisfeitas com meus monstrengos de estimação.
Adoro tudo que você escreve, e como sempre posso ficar horas e horas te elogiando, mas vou ficando por aqui.
Até mais...

Pensador Louco disse...

Minha inigualável e sempre musa Jokers, temo que todas as Fúrias, por enquanto, tenham que aguardar a vez de adentrar nossa masmorra.

Segundo o manifesto universal de Anthares, ao qual nós dois somos filiados, não podemos ou devemos trazer à Terra mais de uma espécie capaz de causar genocídio e desespero.

Não, ao menos, sem ter antes um grande quintal para colocá-las.

Agora, quanto ao aquário e formigueiro, isso é pura maldade tua. Mas o que mais poderia esperar, de um ser tão apaixonante quanto maligno?

Nunca deixe de comenta aqui. A pena por infringir essa lei é passível de morte. Lenta. Bilhões de beijos.