Sabem aqueles filmes antigos? Aqueles quase bíblicos (tanto pelo tema quanto pela idade da película) que costumam passar perto de datas festivas (como a Páscoa), e ninguém mais tem paciência de assistir?Descobri sobre eles uma similaridade bem grande. As minas de sal.
Se vocês pararem pra assistir um filme desses, munidos de energéticos, baldes de café, meta anfetaminas e balas Juquinha, verão que nos temas sempre (ou quase) há referências as tais infames minas de sal. E, acreditem, parece não ter havido nunca um destino pior pra alguém.
O cara pode ser um herói do povo, um emissário do único deus, um mártir ou avatar. Pode encarar o coliseu, trabalho escravo moendo grãos, lutas até a morte contra bestas famintas, e chicotadas até os ossos ficarem à mostra, mas é só falarem nas minas de sal que bate um imediato terror. Ainda que o tal herói seja duro como pedra, as tais minas o fazem esboçar uma expressão facial. Muito séria.
Cá pra nós, isso deve significar que o lugar é um inferno piorado.
Ou algo como ter de assistir reprise final de novela em casa dos avós eternamente, sentido aquele cheio de mofo em todos os móveis e ouvindo comentários babados sobre o desfecho da trama. Acompanhado de canja velha e fria.
Nojento.
E, no fim dos inquéritos, as minas de sal eram apenas trabalho. Escravo. Não remunerado. Sem direito a folga. Sem chance de dar uma checada em e-mails, ou no yogurte. Sem poder comer nada exceto a lavagem dos suínos. No máximo uma coca quente e um pão com ovo, se o cara fosse um funcionário exemplar. Entretanto, era trabalho da mesma forma.
Só que uma forma de trabalho tão incessante e ruim, que englobava toda a vida de cada operário. Um lugar onde feridas se abriam e nunca saravam. Olhando-se à volta, somente um eterno e dolorido mundo de sal.
O trabalho se tornava a vida do trabalhador, e não havia nunca uma data de conclusão. Nada de vida social ou happy hour e, se houvesse um chamego esperando o condenado em casa, pareceria tão longa e demorada a possibilidade de um encontro, que isso ainda faria o trabalho ser mais pesado e penoso.
Como infelizmente acontece conosco, na maioria dos casos.
Embora tenhamos estudado, ralado, feito mil entrevistas e currículos, muitos de nós acabam condenados a pagar nas minas de sal. Os faraós ou déspotas continuam fazendo seu papel. Apenas não têm pretensão de serem deuses ou fariseus (não que eles admitam, ao menos). E a classe operária continua levando no lombo da mesma maneira que um Sansão, um Espártaco. Os dominantes ainda têm os açoites na mão, os trabalhadores ainda correm para suprir os desmandos de uma sociedade autoritária e cruel, e cavam o sal dos túneis usando as ferramentas que podem. São garis, soldadores, médicos, professores... qualquer coisa que não dê o direito de delegar funções ou açoitar os de grau mais baixo. Qualquer calango que precise acumular vários empregos, e dormir nas brechas, pra poder manter um mínimo de dignidade, sem poder sonhar em quebrar as correntes e liderar um revolta. Isso porque as revoltas não existem mais e, quando existem, já estão previstas pelos mesmos faraós que ajudam a incitá-las, fazendo a máquina de demissões, insultos, acúmulo de funções e absurdos continuar girando e gerando mais sestércios.
Pois digo a vocês que estive por longos dois meses ralando, enfurnado numa das mais medonhas minas de sal.
Com quase nenhum minuto entre um trabalho e outro, pra poder respirar. E com um amor preocupado em casa, ao qual não podia dar tanta atenção quanto deveria, porque chegava em casa como se fosse o pão dormido que o demo amassou, e só pensava em dormir um pouco pra começar a ralar outra vez.
Respeitadas as devidas proporções, somos tantos assim. Uns bem piores, em países piores, que não podem nem cultivar esperanças porque nunca lhes deixaram saber que existem. Nossa dependência pelo vil metal é tamanha, que nos sujeitamos a quaisquer coisas. A sermos chamados de incompetentes, quando temos livre iniciativa nas minas; de preguiçosos, quando passamos as madrugadas debruçados sobre o trabalho, sem qualquer sinal de receber hora extra; de ingratos (isso, então, é muito mais ignóbil) quando decidimos mandar as minas aos diabos que nelas trabalham, e saímos crentes de que qualquer outro lugar, mesmo que se tenha de voltar a procurar um lugar, é melhor do que aquilo.
Recebendo uma proposta futura, que sairá meses a frente, chutei para longe as minas de sal. Que vão pro inferno. Todas.
Mas no fundo, bem lá em baixo, passei a respeitar os tais filmes antigos.
Me mostraram que o mundo inteiro é uma mina de sal. 90% de nós trabalhamos nela.
Só podemos sonhar em ter, um dia, uma canja fria pra servir. Comentários babados pra fazer.
E olhar pra trás com a ilusão bondosa de ter valido a pena.
A todos que reclamaram porque o blog tinha parado, peço sinceras desculpas.
Estou de volta, curado das chibatadas.
E longe do sal, porque agora sou hipertenso.











2 comentários:
Olá amigo,
Feliz com a tua volta!!!... Teu post, para variar é ótimo!!! Sabe o que ainda acho o pior do mecanismo todo, o contentamento que essa vida gera com o pouquinho do sal que levamos no bolso a cada fim de mês...
beijos
É verdade, Gleise. E a escravidão nisso tudo é como somos levados a achar que essa "pitada de sal" valeu a pena por tudo o que passamos nas minas.
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